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A cegueira por meio da sífilis

A cegueira por meio da sífilis


Uma epidemia da doença venérea pode acarretar complicações oculares em gestantes, bebês, jovens e adultos de todas as idades. 

Uma possível epidemia de sífilis no Brasil tem alarmado e despertado a preocupação de muitos médicos oftalmologistas. Qual a relação dessa doença sexualmente transmissível com a oftalmologia? Uma de suas graves complicações, que podem acometer qualquer órgão do corpo humano (inclusive os olhos), é justamente a cegueira. A bactéria se multiplica na área genital infectada e em poucas horas se espalha pela circulação sanguínea e linfática.

Embora não haja um levantamento específico do número de brasileiros com perda da visão causada pela sífilis, dados do Ministério da Saúde indicam que a cegueira causada pela doença está em ascensão, já que a contaminação vem crescendo nos últimos anos, sobretudo entre os jovens. Calcula-se que há cerca de 1milhão de pessoas infectadas no país, com maiores concentrações de doentes nas regiões Nordeste e Sudeste.

O problema também se espalha em âmbito global. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 12 milhões de novos casos ocorrem a cada ano no mundo – dos quais mais de 90% são nos países em desenvolvimento. “Considero a situação hoje preocupante, pois temos observado um aumento muito expressivo no número de casos de manifestações oculares por sífilis, resultando na maior parte deles em baixa de visão grave ou cegueiras bilaterais”, afirma a Professora Livre-Docente Adjunta e Chefe do Setor de Pesquisa Clínica do Departamento de Oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Cristina Muccioli.

As manifestações oculares podem ocorrer de várias maneiras e em qualquer estágio da enfermidade, sendo mais comumente na sífilis secundária. Nos adultos infectados que não fazem o tratamento correto, quase todas as estruturas oculares podem ser afetadas. “A estimativa é que 5% dos casos de contaminação secundária pela bactéria da sífilis, a espiroqueta Treponema pallidum, causam uveíte posterior e, por consequência, maior risco de cegueira entre adultos contaminados”, observa o médico oftalmologista pela Faculdade de Ciências Médicas da PUC-Campinas, Leôncio Queiroz Neto, que preside o Instituto Penido Burnier, hospital especializado em doenças dos olhos, existente desde 1920 na cidade.

Adultos de diferentes faixas etárias podem desenvolver por meio da sífilis variadas doenças oculares suscetíveis à cegueira. A uveíte posterior (inflamação ocular do segmento posterior que acomete coroide, retina e nervo óptico) é a principal delas e, potencialmente, leva à perda de visão, total ou parcial, se não diagnosticada e tratada corretamente de forma específica. “Pode ocasionar a cegueira quando afeta e destrói as estruturas mais nobres oculares, como retina, nervo óptico, coroide e mácula”, cita Cristina.

Há também possibilidades do infectado contrair uveíte anterior, eurorretinite, ceratite, esclerite, episclerite, neurite e pupila sifilítica de Argyll Robertson – doença em que a pupila reage mal à luz. “O sintoma que diferencia a uveíte posterior da anterior é a queda visual causada por uma mancha na visão, sinalizando o comprometimento da retina responsável pela perda da visão”, explica Queiroz Neto.

Na maior parte dos casos, o tratamento do paciente é feito com antibiótico oral e, quando administrado corretamente, propicia a cura. “No caso da inflamação ocular, em muitos casos recupera-se a visão”, comenta a Professora Adjunta da Unifesp. Mas não se pode deixar a sífilis evoluir até o terceiro estágio, sob risco letal. Isso porque a doença só apresenta sintomas em suas duas primeiras fases.

As principais reações da sífilis primária são pequenas feridas nos órgãos genitais, que desaparecem espontaneamente e não deixam cicatrizes. Na secundária, podem ocorrer dor de cabeça, febre, falta de apetite, manchas vermelhas na pele, boca, palma das mãos e planta dos pés. Todos os sintomas podem desaparecer com o tempo, mas a doença continuar ativa no organismo, facilitando o desenvolvimento da sífilis terciária.

Dessa forma, toda pessoa infectada deve tomar o antibiótico prescrito à base de penicilina – via intramuscular ou endovenosa, dependendo do estágio da doença – e manter o acompanhamento médico até o exame de sangue comprovar a cura. “Por se tratar de uma doença sexualmente transmissível, a única forma de prevenir a sífilis é mesmo pelo uso seguro de preservativo nas relações sexuais”, orientam em coro os médicos oftalmologistas ouvidos pela reportagem.


Epidemia em gestantes e bebês

A sífilis assola pessoas de todas as idades e sexos; no entanto, um público especial tem sofrido um boom dessa doença nos últimos anos: as gestantes. Levantamento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, divulgado no fim do ano passado, aponta que o número de notificações de sífilis em mulheres grávidas (a maioria com idade entre 20 e 29 anos) aumentou mais de 1.000% em seis anos. Em 2005 foram notificados pelos municípios paulistas 189 casos de sífilis em gestantes, número que pulou para 3.260 notificações, em 2011. Já de acordo com o Ministério da Saúde, entre 2005 e junho de 2012 foram notificados no Brasil 57,7 mil casos de sífilis em gestantes.

A falta de adesão ao pré-natal e a não realização de exames durante a gestação dificultam o diagnóstico e o tratamento. Um simples exame de sangue é suficiente para diagnosticar. Mas quando a sífilis é contraída pela mãe durante a gravidez, a infecção é transmitida ao feto por meio da placenta. Além do risco de abortamento e outros prejuízos para a saúde da criança, pode provocar doenças oculares congênitas no bebê, que são conhecidas como importantes causas de cegueira na infância. As principais são catarata, retinopatia e retinoblastoma.

Todas elas podem ser diagnosticadas ainda no berçário, logo que o bebê nasce, por meio do teste do olhinho. “O problema é que dos 27 Estados brasileiros, apenas 10 tornaram oteste do olhinho obrigatório em toda a rede de hospitais”, critica o presidente do Instituto Penido Burnier, Leôncio Queiroz Neto.

Segundo ele, uma das consequências da falta de obrigatoriedadedo exame é o alto índice de cegueira provocada pela catarata congênita e a opacificação do cristalino, lente do olho responsável pelo foco. Para ter ideia, pesquisas dão conta de que quatro em cada dez crianças cegas no Brasil perdem a visão em decorrência da catarata. Ela também pode ser causada por outras doenças infecciosas contraídas durante a gestação,como a toxoplasmose e a rubéola.

Por conta da sífilis, a retinopatia da prematuridade é a doença ocular mais comum entre bebês prematuros que nascem antes da 32ª semana de gestação. Só no Estado paulista, dados da Secretaria de Saúde revelam que a doença atinge 30% dos prematuros e totaliza mil novos casos por mês. “A doença é caracterizada pelo desenvolvimento anormal dos vasos da retina, que predispõe à hemorragia e provoca cegueira”, explana Queiroz Neto.

Ele destaca que um recente estudo, realizado pela Academia Americana de Oftalmologia, revelou que bebês prematuros têm 19 vezes mais chances de ter descolamento de retina durante a adolescência ou na idade adulta. “Por isso, devem ter acompanhamento oftalmológico regular por toda a vida.”

O retinoblastoma, ou tumor ocular, é outra manifestação oriunda da sífilis. Embora menos comum e faça com que a criança tenha um reflexo esbranquiçado na região da pupila, pode levar à morte quando não diagnosticado. É extraído através de cirurgia.

Para a OMS (Organização Mundial da Saúde), a doença só está sob controle quando a sífilis congênita atinge 0,5% de cada mil bebês nascidos vivos. O levantamento do Ministério da Saúde brasileiro mostrou que, em 2011, esse índice atingiu, por exemplo, 9,8% de cada mil bebês nascidos vivos no Rio de Janeiro e 6,8% dos nascidos no Ceará. “A situação é extremamente alarmante. Trata-se de um importante problema de saúde pública, que tem relação direta com a saúde ocular. Quanto mais precoce é o tratamento, maior a chance de reduzir as doenças oculares que mais causam cegueira infantil”, avisa Queiroz Neto.


Uma doença secular e mitológica

A origem da sífilis remonta à história. Uma das primeiras notícias da infecção em massa causada pela doença data do final do século 15, quando o exército do rei da França, Carlos VIII, invadiu a Itália para conquistar Nápoles. O episódio ficou conhecido como Guerra da Fornicação. Metade dos 12 mil soldados foi vitimada pela doença, que recebeu até o apelido de mal francês.

O nome “sífilis” surgiu em 1530, quando o médico e poeta italiano Girolamo Fracastoro, ao descrever a enfermidade, fez referência ao mito grego do pastor Syphilus, que amaldiçoou Apolo e foi punido com o que seria uma doença venérea.

De lá para cá, a doença atravessou séculos e atingiu proporções epidemiológicas em muitos lugares do mundo. No Brasil, em 2006, foi instituído até o Dia Nacional de Combate à Sífilis pela Sociedade Brasileira de DST.

A data é lembrada todo terceiro sábado do mês de outubro e tem por objetivo aumentar o debate sobre o assunto, mobilizando governo, profissionais da saúde e a sociedade para o combate e prevenção à doença. “Estamos mais atentos a essa nova realidade, observando o aumento do número de casos das manifestações oculares da sífilis. Trata-se de um diagnóstico diferencial, que deve ser sempre considerado nos casos de inflamações ou infecções intraoculares”, assevera a Professora e Chefe do Setor de Pesquisa Clínica do Departamento de Oftalmologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Cristina Muccioli.

[Via Universo Visual]




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